Jornalista uruguaio visita Guaíba, critica indústria da celulose e incentiva mobilização popular

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Foto: Guilherme Bica

Foto: Guilherme Bica

O uruguaio Victor Bacchetta, uma das vozes mais combativas e críticas do jornalismo ambiental sulamericano, visitou Guaíba no último sábado, 18. A convite da Associação Comunitária do Balneário Alegria (ABA) e da Associação Amigos do Meio Ambiente (AMA), o autor do livro A fraude da Celulose conheceu a cidade e percorreu os bairros da Zona Sul, vendo de perto os transtornos que aquelas comunidades sofrem com os impactos da planta industrial da Celulose Riograndense, quadruplicada recentemente.

Victor esteve em Guaíba acompanhado do jornalista Heverton Lacerda, secretário-geral da Agapan, e do também jornalista João Batista Santafé Aguiar. Antes de rumarem até a Zona Sul, os três foram guiados pelo coordenador da AMA, Eduardo Raguse, em um passeio pela cidade, para contextualizar a presença da produção de celulose e seu exponencial crescimento no município desde a instalação da Borregaard, na década de 1970.

Visitando a Estação de Monitoramento da Qualidade do Ar - Foto: Guilherme Bica

Visitando a Estação de Monitoramento da Qualidade do Ar Foto: Guilherme Bica

 

Mais tarde, o grupo foi recebido na residência de uma das integrantes da ABA, na rua Gomes Jardim, via que fica ao lado da fábrica. No local, Victor foi apresentado aos principais transtornos com os quais os moradores daquela região convivem: o ruído permanente, o odor forte e incômodo, a densa fumaça, os particulados e espuma que caem sobre suas residências e mais recentemente a trepidação sentida em móveis e janelas.

Durante mais de duas horas, o grupo promoveu um debate sobre os problemas enfrentados em Guaíba, problemas estes que espelham situações semelhantes no Uruguai e que vêm sendo frequentemente criticadas por Victor nas últimas décadas. O jornalista destacou a importância da criação da associação comunitária e apontou a mobilização popular como caminho mais adequado para melhorias e mudanças significativas, sobretudo pela ausência de comprometimento de autoridades públicas em se posicionarem ao lado da população diante de impasses que confrontem moradores e investimentos privados, grandes corporações e robustos volumes financeiros. “O que eles mais têm medo é disso que vocês estão fazendo, a mobilização popular. É importante que sigam assim, se organizando cada vez mais. A perda do que chamam de ‘licença social’ é terrível para qualquer empresa e resultaria numa imagem ruim junto a acionistas estrangeiros, por exemplo”, incentivou.

Para isso, ele citou exemplos de comunidades que vêm travando lutas corajosas contra algumas das maiores corporações instaladas na América do Sul na última década. Entre eles, moradores da localidade de Gualeguaychú, na Argentina, que também sofrem com a presença de uma planta de celulose na fronteira com o território uruguaio (Fray Bentos), e os chilenos de Valdívia, onde uma indústria do mesmo setor causou um desastre ecológico no Santuário da Natureza do Rio Cruces, que culminou com a mortandade de centenas e migração de milhares de Cisnes-de-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus), espécie migratória protegida, que tem neste local uma de suas maiores colônias reprodutivas do continente.

Algo que o jornalista apontou como fundamental foi a busca por estudos científicos e técnicos que respaldem a luta dos moradores impactados por essas fábricas e permitam que a comunidade rebata com a mesma estatura os argumentos e os números declarados pela empresa, sendo que a situação de Guaíba tem o agravante da planta industrial estar inserida em zona urbana. De acordo com Victor, é importante que sejam incorporados ao trabalho do grupo, por exemplo, análises de economistas sobre os reais benefícios financeiros da empresa para o município, laudos técnicos que indiquem os danos reais ao ambiente, etc.

A comunidade presente relatou as principais dificuldades enfrentadas nos últimos anos e agravadas desde o início das operações da nova fábrica, em maio do ano passado, agradeceram a presença de Victor e garantiram que a luta vai continuar. Uma certeza pareceu se impor para todo o grupo: que o encontro representou mais um importante passo no amadurecimento da militância ambiental e social de Guaíba e que novas pesquisas e atividades técnicas e de promoção e divulgação desse processo para o estado, o país e mesmo internacionalmente devem ser mantidas e aprofundadas.

Fonte: ASCOM AMA

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